O Haiti é conhecido como o país da primeira independência nas colônias do hemisfério sul, o país que, a parti de uma revolução de negros e escravos contra os patrões brancos das plantações, estabeleceu a Primeira República Negra do Mundo.
Este pequeno país no Caribe, que divide a antiga Ilha Hispaniola com a República Dominicana, é tido como um país negro, país do vodu e do Kreyòl – o idioma falado pela maioria esmagadora de sua população – é chamado “Pequena África”. Nada mais adequado, porque, com efeito, representa o que há de mais africano nas Américas. Caminha de acordo com os costumes ancestrais.
Isto é visível no dia-a-dia, no ruidoso mercado de rua, na música com os tambores e pistões, nas expressões artísticas de modo geral. A pintura haitiana não foge a este quadro, ainda que, como em qualquer outro lugar, esta nação expresse a cultura das classes que a compõem. Em virtude disto, há a pintura do Ayiti, a parte negra, que cultua o vodu e fala o Kreyòl e não o Francês e, por outro lado, a pintura do Haiti, que representa as aspirações das classes mais favorecidas, ideologicamente mais mulata, daquela parcela alfabetizada, letrada, freqüentadora de cursos de artes e muitas vezes com professores europeus.
Trata-se, pois, de dois caminhos bem marcados, onde se pode ver mundos diferentes, cuja única ligação é a cor e uma perspectiva nada ocidental. O preenchimento da tela é a dinâmica de uma pintura que enche os olhos com traços firmes e um colorido forte que, sem dúvida, tem sua origem na Mamãe Guiné.
A arte deste Ayiti condiz com o cotidiano, é a busca e a resistência pela sobrevivência, das lides com a fome, com a diversidade, com a densidade da vida na mata e suas expressões coletivas no urbano das ruas, do público que se traduz nas tensões e posições da sexualidade, da corporeidade dos desejos, sentimentos e da luta contínua. Traduz as posturas do povo irredento, alegre, apesar da miséria, e das soluções que encontra para enfrentar a natureza que a exploração colonialista tornou inóspita. Arte e vivência se confundem com sobrevivência, resistência e estilo de vida, não se tornam dissociadas, mas integram um mesmo processo de construção e manifestação de identidade.
A arte deste Haiti com H fala de outro Haiti, ainda que também caminhe na direção da perspectiva da cor, do volume e da composição haitianas, mas, ao contrário da arte tradicional, nega as ruas e o campo, e faz uma leitura haitiana dos clássicos emblemáticos da cultura européia, legitimando o eurocentrismo.
Seus autores buscam o reconhecimento das metrópoles e usam o país como pretexto para uma ascensão pessoal e para chegarem ao mercado das artes nas galerias e museus, rompendo inclusive com as formas de produção e divulgação convencionais – objetivo este que não está sendo atingindo.
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